quinta-feira, 7 de abril de 2011

Palmas compassadas que não ritmavam com as minhas


_é hoje o concerto! Temos bilhetes para um camarote !
_quantas pessoas podem estar no camarote ?
_ acho que cinco…
_Tens mesmo o bilhete do camarote? Onde é que o arranjaste ..?
_ não te digo !! tenho !! e é hoje ! …rias-te …

Esperávamos  há meses pelo concerto do Gilberto Gil , ao vivo no Coliseu . Ouvíamos todas as músicas, vezes e vezes sem conta.
O “Realce”, rolava no gira-discos, sempre para o mesmo lado e sem tonturas ! Ouvíamos e dançávamos, horas seguidas, tardes inteiras. Sabíamos as letras de cor.

“Realce …..Quanto mais porpurina …melhor …l ala la ….”

Pulávamos , e respirávamos tudo o que era positivo naquelas músicas que nos faziam crer que tudo, mesmo  tudo e apesar de tudo  …iria ficar sempre bem .

_ tens mesmo os bilhetes ??!! Eu nem acredito
- È um bilhete só , parva ! É um camarote …
_E quem é que vai ?
_ Vamos nós todos …
- Mas somos mais que cinco….
_Não faz mal, vais ver que cabemos lá todos .

Doía-me a barriga , a espera dava-me cólicas, ou formigueiro… as horas não passavam !

_ Põe o “Realce” outra vez …

O disco dançava connosco, sem saber o que nos fazia, rodava e rodava . A agulha gasta dava mais carácter aquela voz clara.

_ Jantas cá ?
_ Tenho que telefonar para casa …. A minha mãe vai já dizer que não …mas enfim …não vou perder este concerto nem por nada .

Peguei no auscultador do telefone , era preto e reluzia … disquei os números , 3---1---3---7---6---, nessa altura os telefones tinham poucos números  e eu gostava de prender o disco com força e ouvir o ruído da marcação do número.

_ Está …sou eu mãe…Olha ..? Posso jantara aqui … e ir ao concerto do Gilberto Gil , logo à noite ?
_ Olá filha, podes. Claro que podes, tem cuidado. Vai ver o Gilberto Gil que é muito bom. Por favor não venhas tarde.
_Posso mãe??!!     Posso mesmo ? – Está bem eu não vou tarde , prometo . Beijinho mãe, obrigada .

Desliguei o telefone , e nem queria acreditar …

_ Posso ir ! A minha mãe deixa-me, e posso jantar cá. A que horas vem a tua mãe ?
_ Sei lá, vem sempre tarde …fazemos uns ovos mexidos e vamos , temos que lá estar cedo .
_embora até ao café ver quem lá está …temos lugar para cinco !
_para cinco…ou mais !! quantos couberem ….

Ríamos sem parar.

Chegámos , devagar porque não corríamos , quase nunca corríamos .
Chegámos como quem não quer a coisa.

_Sabem que mais ???  temos um bilhete para um camarote , para ver o Gilberto Gil , hoje …

Olharam todos para nós como se nos estivessem a ver com cabeças de porco !

_ A sério ?!
_ Sim …a sério… quem é que quer vir ?

Todos queriam ir , claro . Mas o bilhete era só para cinco …

_ Os camarotes só têm cinco cadeiras …
_ Não faz mal , ficamos uns em cima dos outros …ficamos em pé !
_ Por mim tudo bem , se nos deixarem entrar …
_ Mas como é que tens o bilhete ?
_ aAranjaram-me …
_Quem ??
_ Um amigo da minha irmã , que conhece o Gilberto Gil ..
_ Mentirosa ! És tão mentirosa …ria-me...

Ninguém acreditou 
Dizias isto com um ar de quem não dá importância nenhuma .

Os rapazes olhavam uns para os outros , com olhos que falavam …. _ arranjas as cenas para logo ?

_ Ok arranjo, do melhor …
_Ok , mas vê lá o que é que arranjas , não quero gajos a mandarem-se do camarote lá para baixo  !

Ouvia e não queria saber se queria ouvir ou não.

“ Seja o que Deus quiser, é um concerto …e vou-me querer rir!” pensava sem fazer barulho .

Nem comemos nada de jeito, fomos todos fazer ovos mexidos com batatas de Pála- Pála , e engolimos uma comida sem sabor .

O disco continuava a rodar …sem parar, as colunas estavam no máximo, e dançávamos de prato na mão , depenicando bocadinhos de ovo e batatas fritas .
Desacertava-mos os passos ao som dum reage tão suave , tão envolvente …

Apanhámos o  44 , que nos deixava na Av. da Liberdade, depois era um instante até ao Coliseu .

Quando chegámos à porta, já se amontoava uma multidão que ansiava por entrar por ali dentro, ainda faltavam algumas horas para o concerto.

Bebemos cerveja num café , mesmo ali  em frente , bebemos cerveja até as portas , do Coliseu, abrirem …nem sei quantas cervejas bebemos .

Apagávamos os Sgs Filtros nos gargais das garrafas de cerveja  , os rapazes guardavam as pratas dos maços de tabaco , mais tarde faziam os cachimbos .
Entramos todos no meio dum enorme empurrão, quase que não havia controle nas entradas , e nós só queríamos ouvir o “Realce”  e o, …”no woman no cry……” ao jeito do Bob Marley  , cantarolávamos pelas escadas cima.

Cabíamos todos no camarote, eu fiquei  “à janela” , as meninas à frente para verem melhor , os rapazes atrás ..para arranjarem “as coisas” .

Fumávamos cigarros ,…. Naquele tempo fumava-se nos concertos do Coliseu.

O Gilberto Gil entro no palco, as luzes acenderam-se,  eu hipnotizei-me , imediatamente, pela enorme estrela dourada , pintada na sua cabeça , quando se voltou …vi que tinha uma Lua do outro lado

As luzes faziam com que brilhassem , faziam reflexos de pequenos cristais de caleidoscópio , eu olhava fascina … e …ia fumando o que me passavam para as mãos , cada vez mais feliz , embriagava-me no som , nas letras e naquela estrela virada para mim .

Não me voltava para trás , só sentia o calor de todos os corpos que se moviam perto de mim , ao som da música . Entre odores e fumo, não sentia mais nada , só o ritmo e o fascínio das luzes .
As luzes faziam brilhar a Estela e a Lua … que pareciam enormes …

Sem me aperceber , batia palmas sem ritmo …

Não acertava o compasso, as mãos não obedeciam ao ritmo da música que se instalava dentro de mim…

olhando para as pessoas , lá em baixo, pela “ janela “ do camarote, via toda a gente a bater palmas num compasso que já não era o meu , as luzes começaram a brilhar com mais intensidade….

Ia batendo palmas , assim como sabia , fumava o que me passavam para a mão , entre cigarros e cachimbos  ..Descompassava-me, cada vez mais.

Apercebi-me que me assustava, que já não compassava, que já não me sabia  obedecer , que já não “mandava” nos meus gestos, e a partir daquele momento…nunca mais fumei o que não sabia .

Depois de vários retornos ao palco, o Gilberto Gil acabou o espectáculo. Assobios que pediam mais , e mais .

Palmas compassadas que não ritmavam com as minhas  .
Saímos no meio duma massa de gente feliz, estavam felizes , pareciam felizes… todos se riam .
 Eu deixei de rir, assustada com o meu descompasso,

Voltámos para os Olivais. No caminho cantavam as músicas que ouviram no concerto, eu …estava calada , olhava-os com os olhos muito abertos …esperando que passassem as horas e que me conseguisse ritmar outra vez .

Demorámos imenso tempo a chegar aos Olivais , a mim pareceram-me horas infindáveis , as paragens estavam cheias de gente , que bem nos tinha sabido um carro naquela altura , mas carros ..não os havia assim para toda a gente .

Ríamos por isso mesmo e por tudo e mais alguma coisa

Chegámos ao “prédio” alto, nos Olivais , eu nem sabia como iria para casa …

Ficámos a “matar” o resto do tempo sentados nos degraus das portas , continuavam a fumar …. Eu não queria fumar mais nada . Já não me ria, já não me dava vontade de rir …

_ Vamos até minha casa? Ficamos lá um bocado…
_ Está bem , eu nem sei como vou para casa agora , tenho medo de ir sozinha…tenho que atravessar o Vale do silêncio ….a esta hora …e já foram todos para casa…

Entramos em casa, era mesmo ali,  no R/C , do prédio alto, nos Olivais .

Sentimos vozes e luzes na sala do sofá amarelo . Falavam brasileiro, parecia brasileiro , e naquela altura era tão bom ouvir falar brasileiro…
Ouvimos o som baixinho duma guitarra … alguém cantava , assim com uma voz exactamente igual  à que tínhamos estado a ouvir durante horas,

 Olhámos uma para a outra , incrédulas,  abrimos a porta da sala do sofá amarelo .

E sem acreditarmos, vimos quem cantava assim tão suavemente. Sentado no sofá amarelo, acompanhado com mais duas ou três pessoas , estava o Gilberto Gil, horas depois do espectáculo, a tocar ali,  naquela casa no meio dos Olivais.

_ Tu estás acreditar no que estás a ver…?
_Não …não estou

Desatámos a rir … mas porque raio é que o Gilberto Gil ali estava ….?!

_-tu sabias que o Gilberto Gil vinha para tua casa ?
_ Eu não !?

“..não …não chore mais …. No woman no cry…..”…. os dedos brincavam com as cordas da guitarra .

Parecia não estar a acreditar no que via
_ Mas olha lá …que raio de coisa esta …mas porque raio está o Gilberto Gil em tua casa …?

 “ …quanto mais purpurina …melhorrr….”    e recordava a música , e a estrela agora já não brilhava tanto..nem a lua , eram douradas , pintadas a ouro .

_ Espera …vou perguntar à minha irmã … o que se passa aqui …

“realce…..realce….quanto mais serpentina  melhorrrrr….”…
.
o susto já me tinha passado, e meio embasbacada , sentava-me na pontinha do sofá amarelo , ele sorria-nos com uns dentes tão brancos e com uma voz que nem se explicava ,,,,

“..não desepera quando a vida fere fere …realce …realce quanto mais serpentina 
melhorrrr….quanto mais purpurina ..melhorrr …”

_ Já sei ….já perguntei à minha irmã , parece que o  motorista do Gilberto Gil , é amigo da minha irmã…e resolveram vir cá para casa no fim do espectáculo ….

Olhei com os olhos muito abertos ….Desatámos a rir às gargalhadas … sempre queríamos ver se amanhã, os outros acreditavam em nós …

_ hahaha , amanhã ninguém acredita em nós !

Ríamos e ríamos e começávamos a cantarolar as músicas que ele nos tocava , assim como um presente que nos dava , entre cervejas , cigarros de fumo e gargalhadas espalhadas no meio do som .

_ Eu nem acredito … phá! Mas que raio de coisa…e tu sabias disso
_ Eu não …

E assim ouvimos um mini- concerto , depois dum grande concerto, o mais inesperado da minha vida .

Ficámos por ali sentados no chão, encostados ao sofá amarelo ,  até o Sol nascer e a Lua adormecer... 

TMQueiroz






quinta-feira, 31 de março de 2011

Os nossos passos , descompassavam-se do resto.

                                                    



_ Pára de rir, que eu já não aguento mais ! Já me dói a barriga…


Ríamos, ríamos por tudo e por nada . A caminho do Rock Rendez-Vous, tropeçávamos nas nossas gargalhadas.



Apanhávamos o 31 , naquela altura os autocarros mudavam de cor, devagarinho… , e este já era cor de laranja, moderno e sem o andar de cima. Já não eram mágicos , estes autocarros .



Agarrados ao corrimão, nunca nos queríamos sentar nos bancos feios e acinzentados .



Parávamos na Rua da Beneficência e….
Ríamos, ríamos o caminho todo, ríamos por tudo e por nada , só porque tudo nos fazia rir.



As matines começavam às quatro da tarde, às quartas feiras, lá no Rock Rendez-Vous .



_Quem é que vai tocar hoje, sabes…?
_Não , mas o Zé Pedro disse que tocava lá esta semana …
_Mas os Xutos só tocam à noite…
_Pode ser que toquem hoje .



Já não nos importava quem tocava, caminhávamos a rir, entrávamos porta dentro…a rir …e ficávamos horas a rir e a ouvir aquilo que nos davam .



_ Porque é que eles não quiseram vir …? 
_ Não sei , agora gostam mais de ir ao Bit Club…
_Betinhos !! dizia com soluços de riso .



Entrámos , depois de esperarmos uma hora, à porta do mágico Rock Rendez-Vous .
A Lena D água, cantava com os Salada de Frutas …



“Olha o Robot….. llalalalala….Olha o Robot” 



Na sala, que me parecia muito grande , amontoavam-se corpos quase uns em cima dos outros, pulavam em jeito de dança, e gritavam todas as músicas que já sabiam de cor .



No chão rolavam garrafas de cerveja já vazias, o pó misturava-se com os restos de cerveja, e o chão ganhava uma nova patine, muito , muito escorregadia.



_Ía caindo !! -- gritavas a rir às gargalhadas – quase não se pode andar aqui 



Olhei para o chão e só via vidros castanhos de garrafas partidas .



_ Os Xutos tocam esta noite , depois da matiné !! 
_Não posso ficar, tenho que ir para casa à hora do jantar, e amanhã tenho aulas…
-Que se lixe…. Ficamos 



E ficámos. 



Os nossos pulmões quase que deixavam de funcionar, entre o riso e o fumo que se acumulava na sala e fazia uma nuvem , na qual as luzes reflectiam. 
Ainda era de dia, mas lá dentro estava muito escuro.



_Então o melhor é nem sairmos daqui… senão, não vamos conseguir entrar mais tarde .



Não comíamos, bebíamos cerveja, sentadas no chão escorregadio, bastava-nos a cerveja como alimento, o fumo como sustento e a música como alento.



Procurava um cantinho mais “limpo” onde me pudesse sentar, de pernas cruzadas, continuava a ouvir os Salada de Fruta. Não nos importávamos com o som, o som permanecia nos nossos ouvidos, e cantarolávamos (quando não gritávamos) as músicas já nossas conhecidas.



A Lena Dágua, com um cabelo comprido, que lhe tapava a cara , rodopiava no palco ,dava voltas no seu vestido estampado. 



Cantava bem , voz fininha, que mesmo em gritos não se desafinava. O baterista , batia o seu compasso.



Os nossos passos , descompassavam-se do resto. 



Cansada , encostava-me à parede e esperava pela noite, com um sorriso nos lábios, já cansada de tanto rir .



_Tens a certeza que os Xutos tocam aqui hoje ?! 
_ Tenho, pelo menos o Zé Pedro disse que sim .



Lembro-me do Zé Pedro no D.Dinis, lembro-me dele nos Olivais Norte. E, Norte e Sul sempre foram uns rivais muito amigáveis . 



Lembro-me dos Xutos ensaiarem numa garagem , lá para os lados da Portela .



_ Vamos ter que esperar aqui…? Eu não avisei nada em casa…
_Deixa lá, quando chegares… chegaste !!! rias , feita parva … 



Encolhi os ombros ( não havia telemóveis ) , não havia por ali nenhuma cabine. E se saísse já não conseguia entrar. 



Às sete da tarde já havia uma multidão na Rua da Beneficência , esperavam poder entrar no Rock Rendez-Vous. E tantas vezes esperavam horas , sem arredar pé.



Os porteiros eram enormes, escolhiam meticulosamente, que podia ou não podia entrar. Se estivessem alcoolizados, ou sob o efeito de qualquer outra coisa --- já não entravam .



Havia um risco amarelo, pintado no chão, à entrada, o risco fazia o papel de corda bamba e tal qual equilibristas de circo, rapazes e raparigas tinha que o pisar com, jeitinho, só para provarem que se equilibravam .



Já estávamos lá dentro e não tínhamos saído…assim fiquei com um lugar à frente, quase a tocar no palco. Dançava ao som de discos de vinil, no meio dos compassos de espera.



Bebíamos mais porque tínhamos fome, fumávamos para enganar o tempo. 
Agora esperávamos pelos Xutos …



_mas tens a certeza que os Xutos tocam hoje …?!
_Olha, parva ! Olha para o cartaz ! o que é que diz ?



Olhámos ao mesmo tempo, o cartaz anunciava os Xutos às 9 da noite.
Começámos a rir outra vez , e só parámos quando os Xutos começaram a tocar .
Entraram no palco, todos ao mesmo tempo, o Tim tinha sempre um lenço no pescoço, estavam todos de óculos escuros . 



O Zé Pedro, tinha várias pulseiras de couro e correntes que se prendiam ao meu olhar fascinado . 



Entre guitarras , baterias, microfones e amplificadores enormes , tomavam os seus lugares , e sorriam-nos, com sorrisos especiais .
Com um ar tão “duro” aquela banda , tão nova … deliciava qualquer um . 
Eu gostava do guitarrista, do outro …



_ Como é que se chama este que está aqui a tocar … mesmo aqui …?
_ Não sei …
_Não sabes ? 
_ Há ---- esse é o João … não me lembro do outro nome 



Eu olhava o guitarrista dos Xutos , que tocava mesmo ao pé de mim, indiferente aos pulos que me rodeavam , passei o concerto todo a olhar para a guitarra .
A sala era pequena para tanta emoção, a sala era pequena para tanto talento, era pequena para tanto som que se começava a soltar por ali.



À minha volta todos riam , os cotovelos que me batiam , já não me magoavam …
Embriagada pelo som da guitarra, pelos dedos que a percorriam, pela cerveja que já não me lembrava de ter bebido, inspirava as nuvens de fumo que me secavam a garganta e me apuravam os sentidos .



Nas paredes, os cartazes pardos , amarelados , anunciavam os UHF , para a próxima semana.



Já sei que na próxima semana não vou poder vir, não disse nada em casa…. Nem sabem de mim…



Afastei tudo o que me incomodavam , e comecei a pular em frente ao palco, com pulos tão altos que quase me lançavam para o meio da guitarra do guitarrista …que se chamava João…



_ Como é que ele se chama? …este, que está mesmo aqui, mesmo á minha frente ! ….?
_Já te disse… deves ter ensurdecido com tanto barulho !
_ Estou quase surda ….sorria, e prolongava o sorriso numa gargalhada infernal .



Olhámos uma para a outra sem parar de rir 



_ Chama-se João --- acho que é João ----

....................
TMQueiroz 

Os nossos passos , descompassavam-se do resto.

                                                    


_ Pára de rir, que eu já não aguento mais ! Já me dói a barriga…

Ríamos, ríamos por tudo e por nada . A caminho do Rock Rendez-Vous, tropeçávamos nas nossas gargalhadas.

Apanhávamos o 31 , naquela altura os autocarros mudavam de cor, devagarinho… , e este já era cor de laranja, moderno e sem o andar de cima. Já não eram mágicos , estes autocarros .

Agarrados ao corrimão, nunca nos queríamos sentar nos bancos feios e acinzentados .

Parávamos na Rua da Beneficência e….
Ríamos, ríamos o caminho todo, ríamos por tudo e por nada , só porque tudo nos fazia rir.

As matines começavam às quatro da tarde, às quartas feiras, lá no Rock Rendez-Vous .

_Quem é que vai tocar hoje, sabes…?
_Não , mas o Zé Pedro disse que tocava lá esta semana …
_Mas os Xutos só tocam à noite…
_Pode ser que toquem hoje .

Já não nos importava quem tocava, caminhávamos a rir, entrávamos porta dentro…a rir …e ficávamos horas a rir e a ouvir aquilo que nos davam .

_ Porque é que eles não quiseram vir …? 
_ Não sei , agora gostam mais de ir ao Bit Club…
_Betinhos !! dizia com soluços de riso .

Entrámos , depois de esperarmos uma hora, à porta do mágico Rock Rendez-Vous .
A Lena D água, cantava com os Salada de Frutas …

“Olha o Robot….. llalalalala….Olha o Robot” 

Na sala, que me parecia muito grande , amontoavam-se corpos quase uns em cima dos outros, pulavam em jeito de dança, e gritavam todas as músicas que já sabiam de cor .

No chão rolavam garrafas de cerveja já vazias, o pó misturava-se com os restos de cerveja, e o chão ganhava uma nova patine, muito , muito escorregadia.

_Ía caindo !! -- gritavas a rir às gargalhadas – quase não se pode andar aqui 

Olhei para o chão e só via vidros castanhos de garrafas partidas .

_ Os Xutos tocam esta noite , depois da matiné !! 
_Não posso ficar, tenho que ir para casa à hora do jantar, e amanhã tenho aulas…
-Que se lixe…. Ficamos 

E ficámos. 

Os nossos pulmões quase que deixavam de funcionar, entre o riso e o fumo que se acumulava na sala e fazia uma nuvem , na qual as luzes reflectiam. 
Ainda era de dia, mas lá dentro estava muito escuro.

_Então o melhor é nem sairmos daqui… senão, não vamos conseguir entrar mais tarde .

Não comíamos, bebíamos cerveja, sentadas no chão escorregadio, bastava-nos a cerveja como alimento, o fumo como sustento e a música como alento.

Procurava um cantinho mais “limpo” onde me pudesse sentar, de pernas cruzadas, continuava a ouvir os Salada de Fruta. Não nos importávamos com o som, o som permanecia nos nossos ouvidos, e cantarolávamos (quando não gritávamos) as músicas já nossas conhecidas.

A Lena Dágua, com um cabelo comprido, que lhe tapava a cara , rodopiava no palco ,dava voltas no seu vestido estampado. 

Cantava bem , voz fininha, que mesmo em gritos não se desafinava. O baterista , batia o seu compasso.

Os nossos passos , descompassavam-se do resto. 

Cansada , encostava-me à parede e esperava pela noite, com um sorriso nos lábios, já cansada de tanto rir .

_Tens a certeza que os Xutos tocam aqui hoje ?! 
_ Tenho, pelo menos o Zé Pedro disse que sim .

Lembro-me do Zé Pedro no D.Dinis, lembro-me dele nos Olivais Norte. E, Norte e Sul sempre foram uns rivais muito amigáveis . 

Lembro-me dos Xutos ensaiarem numa garagem , lá para os lados da Portela .

_ Vamos ter que esperar aqui…? Eu não avisei nada em casa…
_Deixa lá, quando chegares… chegaste !!! rias , feita parva … 

Encolhi os ombros ( não havia telemóveis ) , não havia por ali nenhuma cabine. E se saísse já não conseguia entrar. 

Às sete da tarde já havia uma multidão na Rua da Beneficência , esperavam poder entrar no Rock Rendez-Vous. E tantas vezes esperavam horas , sem arredar pé.

Os porteiros eram enormes, escolhiam meticulosamente, que podia ou não podia entrar. Se estivessem alcoolizados, ou sob o efeito de qualquer outra coisa --- já não entravam .

Havia um risco amarelo, pintado no chão, à entrada, o risco fazia o papel de corda bamba e tal qual equilibristas de circo, rapazes e raparigas tinha que o pisar com, jeitinho, só para provarem que se equilibravam .

Já estávamos lá dentro e não tínhamos saído…assim fiquei com um lugar à frente, quase a tocar no palco. Dançava ao som de discos de vinil, no meio dos compassos de espera.

Bebíamos mais porque tínhamos fome, fumávamos para enganar o tempo. 
Agora esperávamos pelos Xutos …

_mas tens a certeza que os Xutos tocam hoje …?!
_Olha, parva ! Olha para o cartaz ! o que é que diz ?

Olhámos ao mesmo tempo, o cartaz anunciava os Xutos às 9 da noite.
Começámos a rir outra vez , e só parámos quando os Xutos começaram a tocar .
Entraram no palco, todos ao mesmo tempo, o Tim tinha sempre um lenço no pescoço, estavam todos de óculos escuros . 

O Zé Pedro, tinha várias pulseiras de couro e correntes que se prendiam ao meu olhar fascinado . 

Entre guitarras , baterias, microfones e amplificadores enormes , tomavam os seus lugares , e sorriam-nos, com sorrisos especiais .
Com um ar tão “duro” aquela banda , tão nova … deliciava qualquer um . 
Eu gostava do guitarrista, do outro …

_ Como é que se chama este que está aqui a tocar … mesmo aqui …?
_ Não sei …
_Não sabes ? 
_ Há ---- esse é o João … não me lembro do outro nome 

Eu olhava o guitarrista dos Xutos , que tocava mesmo ao pé de mim, indiferente aos pulos que me rodeavam , passei o concerto todo a olhar para a guitarra .
A sala era pequena para tanta emoção, a sala era pequena para tanto talento, era pequena para tanto som que se começava a soltar por ali.

À minha volta todos riam , os cotovelos que me batiam , já não me magoavam …
Embriagada pelo som da guitarra, pelos dedos que a percorriam, pela cerveja que já não me lembrava de ter bebido, inspirava as nuvens de fumo que me secavam a garganta e me apuravam os sentidos .

Nas paredes, os cartazes pardos , amarelados , anunciavam os UHF , para a próxima semana.

Já sei que na próxima semana não vou poder vir, não disse nada em casa…. Nem sabem de mim…

Afastei tudo o que me incomodavam , e comecei a pular em frente ao palco, com pulos tão altos que quase me lançavam para o meio da guitarra do guitarrista …que se chamava João…

_ Como é que ele se chama? …este, que está mesmo aqui, mesmo á minha frente ! ….?
_Já te disse… deves ter ensurdecido com tanto barulho !
_ Estou quase surda ….sorria, e prolongava o sorriso numa gargalhada infernal .

Olhámos uma para a outra sem parar de rir 

_ Chama-se João --- acho que é João ----

....................
TMQueiroz 

quinta-feira, 24 de março de 2011

Bebíamos notas e comíamos cigarros.



_ Só gosto duma , desse álbum…só gosto duma !
_ Já sei disso , até era estranho que gostasses de todas …

Eu só gostava daquelas que podia sentir.

_Só gosto duma e, se me deixares,  oiço-a vezes e vezes seguidas, vezes e vezes sem conta.
_ …e estragas a agulha , já é a segunda agulha que compro esta semana .
-ok…já não oiço mais … nem toco no gira discos .

Passávamos mais uma tarde de verão , num andar alto , num prédio alto, dos Olivais .

Eu sentava-me num sofá de veludo, com franjas de cetim. Fechava os olhos e ouvia as músicas que saiam quase sem “batatas fritas “,do vinil que rodava sem soluços num prato prateado , num gira discos cromado .

Quando abria os olhos ,  assim devagarinho, passeava-os  pelas paredes da sala repletas de figuras, pratos e outros objectos vindos de África e de  Macau. As cores escuras e o ar pesado de fumo, tornavam tudo demasiado amarelado, quase acastanhado.

O verão nos Olivais era sempre quente, preguiçávamos só para não sairmos à rua na torreira do Sol .

_Vamos ficar aqui…?
_Não sei , onde queres ir ?
_Está muito calor , ficamos aqui .
_A que horas chegam os teus pais ?
_Os meus pais foram para Lagos, esta semana.  

Casa vazia ! Não podia ser melhor….

_Não vão cá estar ?!
_Não…
_E se fizéssemos uma festa aqui em casa ? Arrastávamos os móveis e abríamos as portas da varanda , comprávamos uma cervejas, sei lá ...umas bebidas
_Não sei…
_Não sabes ?! está um calor de morrer e estamos de férias, acho que ainda cá  está toda a gente, nos Olivais  .Vamos ver se o Pimenta está em casa , telefona-lhe ..
_Já liguei lá para casa , ninguém atende.

Naquele tempo não havia telemóveis, mal sabíamos que quando aparecessem, seriam como um enorme olho na nossa testa!

_Embora ver se o pessoal aqui do prédio está cá .

Corremos o prédio todo. Chamámos o Zé, o João, os gémeos, o Luis, a namorada do Luís  a Rosa,  a Margarida , o irmão da Margarida , o Diogo, e mais nem sei quantos, todos os  que nos íamos lembrando.
Ao fim da tarde tínhamos reunido tanta gente, tantos  que mal cabiam naquela sala, alguns eu nem conhecia, todos dentro dum andar alto, num prédio alto, nos Olivais .

Com a pressa e toda aquela  excitação, de chamar toda a gente para a festa, esquecíamo-nos de comprar comidas e bebidas..

_ Não comprámos nada para beber …nem para comer…. E agora? Já cá está toda a gente …

Arrastávamos os sofás pesados, tirávamos das paredes os pratos chineses que tinham vindo lá não sei de onde , e eram muito valiosos, as estatuetas africanas, que ao mínimo toque se podiam partir em pedaços  .

Arranjávamos cinzeiros,  improvisados em taças de doce, não podíamos partir os cinzeiros lá de casa .
Começavam a chegar , de mãos nos bolsos, não traziam nada, só traziam calor, sorrisos e gargalhadas.

Só queríamos gargalhar a noite toda, e ouvir os LPs novos numa agulha sem “batatas fritas”.

Naquela noite o gira discos podia berrar, nem nos importávamos com os vizinhos .

_Não comprámos nada para comer…nem para beber…e ninguém trás nada

Eu falava baixinho e pouco preocupada, para mim já me bastava ficar sentada naquele sofá de veludo, de olhos fechados ouvindo o barulho de toda a gente , o barulho das vozes dos risos e sorrisos , tornavam-se música , assim… tão facilmente.

Precisava de pouco, precisávamos de pouco para sorrir.

_ Estou a arranjar a música...espera…
Eu esperava, todos esperávamos.

Estavam todos na varanda, o calor era muito, nos Olivais.

Comecei a pensar que aquela mini varanda podia não aguentar com tanta gente, e imaginei sem querer, uma queda colectiva de gente que gargalhava sem razão, sempre de cigarro na mão.

_Não comprámos nada para comer…nem para beber…
_Já ouvi! Parece que só tu é que estás preocupada com isso !

E estava , mas não muito, para mim a festa tinha que ter comida ..e bebida, para eles bastava que tivesse muito fumo e muita música .

 Bebíamos notas e comíamos cigarros.

_ isto hoje vai tocar alto! Muito alto!

As gargalhadas vindas da varanda, soavam-me quentes e espalhavam-se nas ondas de calor , vindo da rua . Começava a anoitecer, a melhor hora do dia.

Os cigarros e os fumos, passavam de mão em mão.

Alguém pedia uma música, depois outra… e outra…e mais outra, falavam todos ao mesmo tempo.
Eu só queria ouvir uma, para poder fechar os olhos e construir tudo à minha maneira, assim cá dentro de mim.

O meu olhar era distante, sempre foi assim. Ainda hoje mo disseram, que estava igual, estava o mesmo olhar.
Olhar contraditório, de quem não está ali, mas marca uma presença indelével . Nunca me apercebi que era assim.

_Mete o disco a tocar! Mete música! Diziam quase aos berros.
_não temos nada para comer… nem para beber…

O disco tocava alto, era o último dos “Cars”.

 Já nem me lembro se tinha vindo de Londres ou não. Muitos vinham de Londres, encomendados, não estavam nas discotecas. No tempo em que as discotecas ainda eram lojas onde se vendiam discos, LPs , Singles e cassetes.

_Põe aquela que eu gosto… Como é que se chama? “Drive”… chama-se “Drive”…acho eu…
_Agora não. Deixa o disco tocar todo, não posso estar sempre a mexer na agulha, risco o disco todo .
-E quantas faltam para a que eu quero ?
_Não sei.

Ninguém ligava à nossa conversa monocórdica, ninguém tinha fome.

 Começavam a ter sede.

_não há nada para beber?
_Não. Não comprámos nada , e vocês também não trouxeram nada, isto foi assim tudo à última hora… está aqui imensa gente …o Pimenta não veio?
_Deve estar a chegar.
Eu fechava os olhos, baralhada, esperava pela música que queria.

“Who’s goanna tell you when…it’s too late..? ……………..“

_Teresa queres fumar?
_Não.

Dizia sempre que não.

_Não há nada para beber?
_Não sei, já nem quero saber, pergunta ao Fernando.

Começava a tocar a “minha” música ….

“Whos gonna come around, when you break….you can’t go on, thinking, nothing’s wrong….whos gonna drive you….”

Repetia a música na minha cabeça, vezes sem conta, cantarolava calada enquanto me falavam e eu fingia ouvir.

_Fernando, não há nada para comer… nem beber…

De repente, levanta-se do chão, num pulo enorme.
_Tenho uma ideia! O meu pai tem dezenas de garrafas de whisky na despensa… Ele não bebe …não gosta … só gostam de gim…E todos os anos lhe oferecem imensas lá na Manutenção.
_onde? Perguntavam quase em coro
_Ali na cozinha, na despensa, lá em cima nas últimas prateleiras

E correram para despensa da cozinha, só lá cabia uma pessoa de cada vez, com um banco começaram a tirar as garrafas das últimas prateleiras, aquelas que estavam mais lá para o fundo.

_Se tirar-mos as lá de trás, lá do fundo, o meu pai não dá por nada. Atenções que elas estão numeradas, tirem as com o número mais alto.

Ninguém ligou aos números, e tiraram a s garrafas à toa .
Não comemos, mas bebemos!

Já rolavam garrafas pelo chão, umas cheias, outras vazias, outras meio cheias…

_Mas…não temos nada para comer…
_ninguém quer comer Teresa!

Calei-me, e disfarçadamente fui ao gira discos e coloquei a agulha no princípio da “minha “música … sem ninguém dar por isso

“Who’s goanna come around, when you break….you cant go on, thinking, nothing’s wrong….who’s goanna drive you….”……

Não faltou muito para que já não ouvissem nada .

Bebiam whisky puro, desalmadamente, iam adormecendo. Uns nos sofás, outros no chão, outros encostados a si próprios… outros uns aos outros.

Trocavam beijos sem se aperceberem, de olhos fechados para não se verem…

E sem ninguém ver nem ouvir… eu já podia devorar a minha música

“Who’s goanna come around, when you break….you can’t go on, thinking, nothing’s wrong….who’s goanna drive you….”……

Olhava à minha volta … Estavam todos espalhados pelo chão, no meio de garrafas amareladas…

O Pimenta não veio.
“…who’s goanna drive you home ….tonight   .”……
TMQueiroz